Poluição visual existe?
Mais um projeto está tramitando na Câmara dos Deputados para restringir a publicidade. Agora é o deputado Edigar Mão Branca, do PV da Bahia, que propõem o fim da publicidade dentro dos aeroportos, alegando que estas publicidades geram poluição visual.
É preciso que as entidades da propaganda e especificamente da área de mídia exterior se unam contra mais uma ação contra a publicidade, e que combatam firmemente o próprio conceito de poluição visual.
Já falamos aqui várias vezes - cheque “poluição visual” na Busca - dando nossa opinião e mostrando a opinião de especialistas: poluição visual não existe. O que é ou não é poluição é determinado pela OMS. É um critério científico, que determina em que quantidade determinada sustância encontrada no ar, na água, no ambiente (ruídos em decibéis) é prejuducial a saúde.
A alegação de poluição visual é um julgamento estético do observador. Querer impor padrões estéticos por lei é um cerceamento claro a liberdade de expressão. Quem pode questionar se um deputado achar Guernica ou o Abaporu um caso de poluição visual? Lembro que quando um banco patrocinou a mostra de Picasso em São Paulo, há alguns anos, utilizando diversas empenas para reproduzir as obras da exposição, foi saudado por estar divulgando a arte. Quando as mesmas empenas voltaram a anunciar refrigerantes, roupas e automóveis, elas voltaram a ser poluição visual.
A publicidade é uma manifestação cultural contemporânea. Desde Toulouse Lautrec, passando por Andy Warhol e por diversos outros artistas, a publicidade foi e é, também, espaço para a arte. Quem duvida vá ver a exposição “A Cultura do Cartaz”, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
O que estamos vendo, com cada vez mais frequência, são novas iniciativas de restrição a publicidade. Neste caso, a poluição visual é o pretexto. Parece que há uma vergonha em aceitar que somos uma sociedade de consumo. O estímulo ao consumo é equiparado a apologia as drogas: deve ser combatido, restringido, controlado. O consumidor é uma pessoa sem qualquer discernimento, incapaz de tomar decisões, que precisa ser protegido pelos deputados - seres de capacidade superior - para não serem corrompidos pelos vilões do consumismo: os Nizan Guanaes, os Fábio Fernandes, os Washington Olivetto que controlam as mentes e os corações dos pobres e indefesos cidadãos, transformados em zumbis teleguiados em suas decisões de compra.
Seria cômico se não fosse trágico.
 
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Comentários (5 comentários)
Independente de ser prevista pela OMS, poluição visual existe sim. E engana-se quem pensa que o consumidor tem direito de escolha. Nos shoppings, por exemplo. Como se não bastasse o excesso de informação já contido em cada vitrine, os banners pendurados por todo o mall, os adesivos em cada loja, os quiosques cheios de luminosos, ainda inventaram publicidade nas pilastras! Em nenhum momento, encontra-se um descanso para os olhos. E não se pode comparar a propaganda à arte, de forma alguma. Propaganda é essencialmente informação. Layout, texto, logomarca, texto jurídico, o escambau. E nunca é apenas uma. O direito de aparecer se estende a todos, não? Basta pagar. E o pobre do consumidor, antigamente também conhecido como pessoa, que se vire se quiser descansar os olhos. Ah, claro, eu dei o exemplo de shopping, aí não vale. Pois bem. Vamos às ruas. Avaliem o que foi dito acima e vejam se não se aplica.
O que precisamos, com urgência, é de mais horizontes. A publicidade não se prejudica com isso. Fica apenas restrita a espaços específicos. E assim consegue mais destaque para suas mensagens. Porque esse excesso de informação, no final das contas, acaba não comunicando absolutamente nada.
Cristina / 6 / Maio, 11:10 / #
Poluição visual eles fazem nas campanhas políticas sujando as ruas com os santinhos e faixas, além de carros de som escrotos que berram muito! além de poluição visual é sonora e ambiental também.
Não adianta… o Brasil não tem jeito.
Albergaria / 6 / Maio, 3:25 / #
É isso aí Cristina, vamos acabar com a Poluição Visual, vamos acabar com as propagandas nos shoppings, as propagandas nas ruas, no transporte público. Afinal de contas a propaganda é inútil mesmo, até porque você não precisa saber que um produto, ou serviço, existe para consumí-lo. Você sabe tudo. Se a propaganda não existisse você não teria o seu sapato preferido, a sua bolsa preferida, a pasta que mais se aplica a sensibilidade dos seus dentes, o papel higiênico mais macio para limpar as suas nádegas. Você não precisa de um carro seguro, ou melhor você não precisa saber se ele é seguro, você só precisa de um carro. A propósito, também não interessa se ele é econômico, porque você tem dinheiro de sobra.
Vamos agora as propagandas de shopping, até porque, de novo, você tem dinheiro de sobra, e não está nem aí se uma loja te oferece um desconto ou um preço mais em conta para o seu bolso. Você não tem uma marca preferida de roupas, você não tem uma marca preferida de sapatos e nem de bolsas. Você não gosta mais da comida do restaurante tal na praça de alimentação porque é tudo igual mesmo. Você não tem a TV que você comprou na loja tal porque o vendedor te disse que aquela marca era melhor que a outra, porque, acredite ou não, pela forma como você expoem seus idéias, é tudo igual mesmo. Ah, claro, não vamos esquecer dos seus produtos de beleza, porque afinal, é tudo igual mesmo, e certamente não é a publicidade que vai influenciar você a escolher uma marca em relação a outra.
Acredito que, sim, a propaganda também é uma forma de arte. Não é a toa que grande parte dos artistas de vanguarda estão assinando peças publicitárias de grandes marcas e querendo ou não, o mundo é sim, capitalista, e para se manter um padrão de vida aceitável, precisamos de dinheiro. Se a publicidade não existir, o ciclo econômico se distorce, grandes empresas passam a vender menos e são forçadas a fechar sedes. Quando um sede de uma grande empresa fecha, ela perde funcionários, esses funcionários, por sua vez, também são consumidores que assim como você, não vão saber diferenciar uma marca de outra, porém eles não tem o mesmo poder aquisitivo que você, que compra qualquer marca, porque é tudo igual mesmo.
E agora, uma opinião só minha, um pouco grossa talvez, mas ainda sincera. Quer ver o horizonte, vai pro campo, vai pra praia, seilá, vai visitar o mini-mundo de Gramado (que aliás você não saberia que existe se não fosse a propaganda).
Acostume-se, porque afinal, o mundo é consumista. O consumo, querendo ou não, é o que gera lucro, e é o que faz a economia rodar, e também é o que faz você ter dinheiro, mas você não precisa de dinheiro, você tem o bastante, porque você sabe tudo que você precisa, porque para você é tudo igual mesmo!
Ps.: não quero aqui gerar uma briga, mas sim uma discussão criativa sobre assunto!
abraços
Gustavo / 7 / Maio, 1:00 / #
Olá Cristina,
Obrigado pelo seu comentário. O debate é sempre bom.
Pelo seu comentário, você acha que o número de estímulos visuais nos centros de comércio são excessivos. Vários recursos são utilizados para chamar sua atenção. Pelos seus padrões estéticos, este excesso de recursos são agressivos e te incomodam.
Esta aparente desordem, variedade e disputa entre diferentes elementos de um mesmo espaço é o que encontramos, para ficar no mesmo exemplo do texto, em Guernica, de Picasso. É o que vemos na natureza, ao andar numa floresta tropical. É o que vemos numa estrutura de corais, no fundo do oceano. É o que vemos nas feiras-livres, numa exposição de centenas de quadros num museu, num show de fogos. É o que vemos na página inicial de qualquer portal na internet. Mas nestes contextos, esta aparente desordem não é poluição visual.
Não acho que a variedade, a desordem ou a “poluição visual” seja o problema. Toda vez que vejo críticas a poluição visual, o que percebo é uma crítica ao aspecto “invasivo” da publicidade extensiva. Ao fato de que ela “invade” não por ser desordenada ou “poluente”, mas por ser interruptiva e impositiva. Como muitas vezes é ressaltado pelas empresas de mídia exterior ao compará-la com outras mídias: o consumidor não vira a página, não muda de canal, não zappeia as peças de publicidade que encontra pelo seu caminho. E num momento em que, cada vez mais, o “poder” do consumidor é ressaltado, o conteúdo é valorizado, o “opt-in” é endeusado, esta gente que insiste em colocar um outdoor sem me pedir licença está “poluindo” nossas vidas.
Há, em relação a mídia out-of-home, uma reação semelhante a repulsa ao telemarketing ativo ou ao spam. Não é a toa que algumas pessoas chegam a utilizar o termo “spam urbano”.
Mas será que é possível, na nossa sociedade, uma publicidade exclusivamente opt-in? Os meios de comunicação se sustentam sem a publicidade interruptiva, o break de 30 segundos, o anúncio de jornal com o sugestivo formato “rouba-página’? A publicidade só deve estar acessível para quem a procura de forma ativa? Como anunciar um produto e conceito novo? Como tentar convencer as pessoas a fazer algo que elas não estão propensas a fazer? Não algo tão fútil ou insidioso como comprar um calça de grife ou um tênis de centenas de reais, mas alguma coisa como tomar uma vacina, estimular a preservação do meio ambiente ou anunciar uma promoção ou oportunidade que pode interessar alguém ou fazer alguém mudar de idéia.
Sem querer fechar a discussão ou provocar mais polêmica: eu não acho que qualquer publicidade é arte. Mas acho que algumas podem ser. Aliás, longe de mim dizer o que é arte ou não. Toda vez que vejo instalações da Bienal de São Paulo preciso rever os meus conceitos sobre o que é arte.
Abraços,
Sergio Viriato / 7 / Maio, 7:39 / #
Já estou de saco cheio com a polêmica em torno da poluição visual. Muita gente falando sem conhecimento. O que falta no Brasil são escolas. Muito intelectual com pesquisa feita na internet. É preciso tese. Muito conteúdo empírico. Muita gente esquecendo ou não sabendo utilizar a lingüística, semiologia e alô Octavio Paz. “Nada mais legítimo - a linguagem não só é um fenômeno social como constitui, simultaneamente, o fundamento de toda sociedade e é a expressão social mais perfeita do homem. Um sistema de relações”. No momento acho melhor o Chacrinha.
José Carlos Ferramosca / 12 / Maio, 11:28 / #
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