Poluição visual?
Há muito tempo eu defendo que o conceito de poluição visual não existe. É, na maior parte das vezes, um patrulhamento estético.
Wilson de Oliveira Souza, comunicólogo, jornalista, designer de Vitrina e pesquisador-líder do Nupescom (Núcleo de Pesquisa em Segmentação Comunicacional) e membro da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) e da IAMCR (International Association for Media Communication Research), publicou um artigo muito técnico no dia 16/1 no Mundo Marketing do qaul extraio algumas partes. Ele é muito mais competente do que eu ao tratar deste assunto.
Existe realmente poluição visual?
Por Wilson de Oliveira Souza
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, encaminhou projeto de lei à câmara do município com o objetivo de proibir a publicidade exterior na cidade. Para justificar o ato, o prefeito, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo menciona que 90% da publicidade exterior paulistana está fora-da-lei e que “com leis confusas, obscuras e contraditórias, o mercado é regulado por uma margem imensa de subjetividade que abre oportunidades de corrupção”. Além disso, ele aponta que o setor é responsável pela “poluição visual da cidade”, sem, entretanto, apontar qualquer indício nesse sentido. Ao contrário do que se imagina, o prefeito não pesquisou o suficiente para tal alegação, pois se o fizesse, certamente não encontraria qualquer estudo, notícia ou referência de dano causado ao ser humano pela publicidade exterior no meio urbano.
(…) Nem mesmo acidentes de trânsito - há os que acusam a publicidade exterior de desviar a atenção de motoristas e pedestres - foram noticiados tendo como causador a propaganda ao ar livre. O que se depura do projeto de proibição proposto pelo prefeito de São Paulo é que o mesmo tenha outra finalidade, que não a preservação da saúde e do bem-estar da população.
(…) Freud disse, certa vez, que quando razão e emoção se defrontam, normalmente é a razão, e não a emoção, que sucumbe. Portanto, quando se trata de assuntos no qual o coletivo está envolvido, no conturbado mundo atual, mais do que nunca, as pessoas estão agindo muito menos do que pensam movidos por suas convicções, suas idéias e seus princípios, e muito mais do que pensam movidas por seus sentimentos, seus desejos, seus temores (Ferrés, 1998). Esse pavor parece ter se instalado no conceito de que, quando constatado a abundância, instala-se a perniciosidade. Mas isso não se confirma. Luyten (1988) aponta que recebemos diariamente milhares de comunicações, de todas as espécies. Segundo o autor “vivemos cercados por um mundo que, incessantemente, nos lança elementos comunicativos: mensagens. O que acontece, porém, é que a maior parte dessas comunicações é recebida e, imediatamente, esquecidas”. Ortiz (apud Souza, 1999) diz que a informação não é cumulativa, “ela é sempre filtrada pelo crivo da estratégia”. No entanto, o que importa é que o número de mensagens guardadas em nossa memória é muito pequeno diante do grande número de mensagens recebidas. A média diária de mensagens recebidas e lembradas - portanto efetivamente recebidas - é de 100 por dia. (Souza, 1999).
Nesse sentido, o conceito de Maskulka (apud Vargas) de que “a partir de determinado ponto, a quantidade de informações e mensagens, passa a criar uma sensação de irritação que acaba por surtir efeito inverso ao que se pretendia inicialmente, ou seja, não permite a adequada absorção das mensagens”, não leva em conta o poder que o indivíduo tem em selecionar a recepção dessas mensagens, já que “as comunicações não intervêem diretamente no comportamento explícito, tendem, isso sim, a influenciar o modo como o destinatário organiza a sua imagem do ambiente” (Roberts, apud Wolf, 1995). E essa organização é realizada a partir do conhecimento que o indivíduo adquire. Ortiz (apud Souza, 1999), diz que é muito comum a confusão entre conhecimento e informação. “Essa é, talvez, uma das crenças mais arraigadas de nossa contemporaneidade. Simples, ela se impõe sem nenhuma necessidade de demonstração”.
(…) a crença de que a abundância de imagens no ambiente público e urbano provoca prejuízo ao ser humano pode estar se tornando em uma nova crença, visto que não há dados e pesquisas que provam tal assertiva. Vargas e Mendes dizem que “poluição visual é o limite a partir do qual, o meio não consegue mais digerir os elementos causadores das transformações em curso, e acaba por perder as características naturais que lhe deram origem. No caso, o meio é a visão, os elementos causadores são as imagens, e as características iniciais, seriam a capacidade do meio de transmitir mensagens”. Assim sendo, o ambiente urbano estaria sendo visto como ciência da natureza, e não como ciência social, pois “as ciências sociais devem se preocupar com a compreensão dos casos particulares e não com a formulação de leis generalizantes, como fazem as ciências naturais” (Goldenberg, 1997). Ao configurar a generalização, tem-se o efeito persuasivo, pois, conforme Russ (1994), a persuasão é a “ação pela qual se leva alguém a crer em algo, por uma adesão completa, tocando sua sensibilidade” o que difere da convicção, que é obtida de maneira racional. E essa ação é feita, primordialmente, pela informação, que, segundo Wolf (1995), é um ingrediente da cultura de massa, que por sua vez, utiliza um “sistema de cultura, constituindo-se como conjunto de símbolos, valores, mitos e imagens que dizem respeito quer à vida prática, que ao imaginário coletivo”.
(…) Ao imputar ao sistema visual urbano o caráter de poluente, o fazem a partir do conceito genérico de poluição. Mas a definição para este termo é a “presença ou introdução, no meio ambiente, de substâncias nocivas à saúde humana, a outros animais e às plantas, ou que prejudicam o equilíbrio ecológico” , (…) Ao que consta, o acesso do ser humano a símbolos, formas, ícones e cores na urbe não têm provocado qualquer dano biopsíquico. Para qualquer um dos sentidos, e muito menos para a visão, porque esse órgão não funciona de forma isolada dos demais sentidos, ainda mais que “o cérebro é o maior aliado da visão. São os olhos que vêem, mas quem enxerga mesmo é o cérebro” Portanto, a visibilidade - qualidade de visível, que provém do latim visible - diz respeito ao que se pode ver, de forma clara, aparente, perceptível.
(…) pode-se inferir que a poluição visual, ou estresse visual, está em voga. Já está tematizado pelo mass media. Para Wolf (1995), “tematizar um problema significa, de fato, colocá-lo na ordem do dia da atenção do público, dar-lhe o relevo adequado, salientar sua centralidade e o seu significado em relação ao fluxo da informação não-tematizada”. Mas o assunto ora tematizado ainda não foi devidamente explorado em seus aspectos teóricos, conceituais e definições.
(…) a cidade contemporânea é um suporte de signos que devem ser apreendidos instantaneamente, onde “o seqüencial cede lugar ao simultâneo, forma e função chegam a ser unidades”. Assim, a sociologia compreensiva, que tem suas raízes no historicismo alemão, distingue ‘natureza’ de ‘cultura’, pois considera necessário estudar os fenômenos sociais e utilizar “um procedimento metodológico diferente daquele utilizado nas ciências físicas e matemáticas” (Goldenberg, 1997). E a escolha de um objeto para estudo já significa um julgamento de valor na medida em que ele é privilegiado. A autora aponta que “as ciências sociais têm sua especificidade, que pressupõe uma metodologia própria”.
(…) não há porque insistir que as imagens urbanas afetam biopsiquicamente os indivíduos, pois a percepção visual - análise e interpretação da informação recebida e processada através do sistema visual - não pode ser confundida com a percepção subliminar, onde as mensagens são recebidas e processadas de forma tal que a pessoa não tem consciência dela.
(…) Ao considerar que as mensagens publicitárias no ambiente urbano contribuem para a poluição e estresse visual, tem-se o que Foucault (apud Mattelart, 2003) chama de controle social. “A ‘disciplina-bloco’, feita de proibições, bloqueios, clausuras, de hierarquias, encerramentos e ruptura de comunicação. E a ‘disciplina-mecanismo’, feita de técnicas de vigilância múltiplas e entrecruzadas”. E esse controle, ao atingir o âmbito político, se transforma em “símbolos do poder [que] são símbolos de soberania” (Lurker, 1997). No dizer de Coelho (1997), isso se chama paternalismo cultural, que é “as proteções excessivas, oferecidas pelo Estado, à produção cultural de maneira indiferenciada ou a um ou alguns modos culturais escolhidos”.
Nesse sentido, Vargas e Mendes apontam que o meio ambiente urbano, quanto a sua visualidade, deveria seguir esses preceitos e “no caso de anúncios nos próprios edifícios, seria necessário repensar todo o processo de controle. Ou seja, rever os critérios de definição do que seria anúncio”, ao complementar que o poder público deveria “imprimir uma fiscalização eficiente para verificar se os projetos de fachadas foram devidamente aprovados”. As autoras propõem ainda medidas restritivas para a publicidade em fachadas e pedem para “discutir a necessidade de pagamento de taxas e rever os critérios locacionais”. Entretanto a proposta das autoras não se limita a restrições, e sugerem que a municipalidade “é que deveria se apropriar da renda diferencial proveniente das localizações privilegiadas em termos de visibilidade e de fluxo de pessoas, para colocação de anúncios”. Nesse sentido, o ambiente urbano se transformaria em intermediador, configurando o ato em “intermediação cultural [que] tem forte conotação economicista e aplica-se com mais propriedade àqueles casos em que a operação designada tem os traços das operações que se registram no campo das trocas econômicas” (Coelho, 1997).
(…) Em face da falta de amparos metodológicos e científicos da existência da poluição visual urbana, que, por conseguinte geraria o estresse visual, cabe neste momento propugnar para que todos os envolvidos na temática da visualidade urbana busquem, de maneira multidisciplinar, tratar o assunto em direção à dessimbolização, que é o processo cultural pelo qual as emoções e os sentimentos são separados do pensamento e focar no objeto estético, que “só se realiza com a contemplação do perceptor, que ainda o explica e o atualiza” (Assis Brasil, 1984). Esse objeto estético - a visualidade urbana - é formado por imagens fundidas, que, de acordo com Oliveira, pensa-se que se “pode escapar de sua sedução, as imagens coladas - agora realidade e imaginação - permanecem fundidas. Toda vez que evocadas, uma ou outra, as duas existirão”. Assim, ao invés de se advogar a perissemia para ‘poluição visual’, urge a busca da polissemia, que é a multiplicidade de significações para uma só palavra.
 
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